quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

NA ESTRADA, UM CAJU, UM VELHO E UMA FAMÍLIA


Estive fora a trabalho por vários períodos e mal tive tempo de ligar o computador para o “lazer”, por isso andei sumidinha.

Mas agora estou de volta para comentar algumas coisinhas do cotidiano.

Bem, então posso começar por alguns dos lugares por onde passei e que permanecem fortes na memória.

Acho que vou começar pelas cidades de Campos dos Goytacazes e São João da Barra, que ficam aqui na região nordeste do Estado do Rio de Janeiro.

Nessa região atravessei quase que de ponta a ponta, conhecendo algumas cidadezinhas pequenas e de gente muito humilde, e numa dessas travessias, sozinha e de carro, vindo de São João da Barra seguindo para Barra do Açu (Balneário em São João da Barra) através de uma estrada de terra (digo: areia), encontrei um caju (fruta) caído no chão, Vejam só! Num lugar deserto da RJ-196, debaixo de um sol escaldante, vejo um único caju no meio da pista e isso me dá vontade de parar e pegar a pobre da fruta, mas como me pareceu ainda verde, não parei, mas juro que aquela imagem suculenta não me saiu da cabeça.

Logo à frente, percebi um senhor que caminhava com uma cesta na mão e como eu sempre faço, parei e lhe ofereci carona, e o homem acanhado disse:

-“Num pricisa, moça... No queu vô, é logali”.

Insisti e ele acabou entrando no carro e acomodando a cesta sobre as pernas.

Andei alguns quilômetros e nada do homem dizer onde iria ficar. Intrigada, perguntei e ele me respondeu:

-“Tá chegano, é logali”.

Mais alguns quilômetros e nada. Olhei para o odômetro do carro e desde que havia marcado, e nessa hora ele já estava comigo há algum tempo, já havíamos trafegado uns quatro quilômetros.

Curiosíssima como sou, perguntei aonde ia e ele me disse que estava indo levar o almoço do sobrinho... Olhei para o relógio e vi que já eram 11 horas da manhã, e imaginei que, se o homem fosse a pé fatalmente chegaria a tempo de entregar a encomenda antes do final do expediente ou na hora da janta.

Pergunte-lhe a idade e ele respondeu:

-“É um poquinho mais diqui cinqüenta”.

Pelo menos parecia mesmo. A mentira dele foi só quando disse que era “logali”...

Bem, de repente ele apontou para uma porteira na beira da estrada e avisou:

-“Ó moça! É logali que eu vô ficá! O minino da minhirmã, meu subrinho, cê num sabe? É aqui qui ele trabaia”.

Parei em frente à cancela que naturalmente pertencia a alguma propriedade, olhei e nada vi além de uma vegetação rasteira e um caminho reto de areia que parecia sem fim. Preocupada em largar o cara sozinho no meio do nada, perguntei onde era exatamente que ele ficaria, no que ele respondeu:

-“Mas a sinhora num pricisa intrá, daqui eu vô sozinho mesmo, tô custumado”.

Então ele agradeceu, desceu do carro e se dirigiu para o lado da porteira, se curvou e passou por entre o arame farpado, agradeceu de novo, deu tchauzinho e seguiu em frente... E eu, antes de dar a partida, lembrei da distância e contabilizei pelo odômetro. Percorri com ele seis quilômetros desde que havia começado a marcar, no meio do nada, em uma estrada de areia e sob um sol muito quente...

E ainda tem gente que reclama de subir um lancezinho de escada. Não pode, né?

Então, depois de deixar o velho com um “poquinho mais di qui cinquenta” em frente a porteira da propriedade onde o sobrinho trabalhava, segui viagem com destino ao Balneário de Barra do Açu...

Como falei antes, o sol estava muito quente, a claridade incomodava as vistas quando refletia na areia clara da estrada, que era cercada pelos dois lados por arames farpados, vegetação rasteira e poucas árvores.

E o caju? Ah! O caju... Ainda não havia esquecido o caju... Não esqueceria naquela hora por causa da sede que começava a apertar, ainda mais naquele “meio do nada” que não tinha nem uma tendinha para fazer um pit-stop rápido. Um calor terrível, o sol quente demais naquele deserto e minha cabeça não parava de saborear o danado do caju, ou pelo menos o sumo dele...

Mas como todo deserto tem um Oásis, aquele não foi diferente, pois depois que dobrei uma curvinha metida a besta, me deparei com o quê? Com o verdadeiro Oásis, ora! Um Oásis bem formado por um caixote em pé, na margem direita da estrada, em frente a um portão meio escondido entre a vegetação. Exuberante caixote na posição vertical ostentando nada mais e nada menos do que uma bacia plástica com um bom apanhado de cajus caprichosamente colhidos... Sério! Se bem que não fossem caprichosamente colhidos, não faria a menor diferença pra mim, afinal, não poderia escolher melhores mesmo...

Parei o carro na hora! Havia passado um pouco, engatei a marcha à ré e voltei alguns metrinhos até emparelhar com o bendito caixote, que me oferecia uma quantidade daquelas frutas que não me cabia nos olhos.

Olhei em volta e não vi ninguém, tentei notar a presença de alguém por trás do portão e nada... Pensei: “Não acredito em milagres, não fiz três pedidos a nenhum gênio da Arábia, já que estava num aparente deserto, então, como isso veio parar aqui? Poderia ser um bom desejo do velho que dei carona, mas ele nada sabia do caju que eu havia desprezado lá no início da estrada. Ora, bolas”...

Aí, então, tive a idéia de buzinar para ver se aparecia alguém, nada, toquei de novo até que surgiu, vindo da direção do portão, um pequeno menino com seus 4 anos de idade, presumidamente. Logo atrás apareceu uma mulher com uma criancinha no colo e um largo sorriso no rosto.

Ao se aproximarem do carro, percebi o quanto eles eram bonitos. A mulher de pele muito branca, faces rosadas, cabelos loiros e olhos azuis (falei azuis, não cinzas), sem maquilagem e sem nada, estava na pura pele. O menino que logo se debruçou na porta do carro, também me deixou perceber o quanto era lindo, da mesma aparência e feições era a menininha do colo, os olhos de todos eles pareciam bolinhas de vidro na cor azul turquesa e por um momento me lembraram as bonecas que eu tinha quando criança, aquelas do tipo anglo-americanas.

Ao mesmo tempo em que os admirava, perguntei se os cajus estavam a venda, então a jovem senhora respondeu que sim, que custavam R$ 2 Reais a bolsa (plástica de mercado), eu estranhei o preço baixo e imaginei que ela não respeitaria o limite da bolsa, mas enfim, aceitei e fechei o excelente negócio.

Enquanto ela colocava os cajus na bolsa, peguei o dinheiro e entreguei nas mãos do menino, que nessa hora quase pulava dentro do carro querendo olhar tudo, se prendendo nos pedais e volante. Ao receber o dinheiro nas mãos, o menino ficou paralisado, segurando a nota na altura dos olhos e admirando como se fosse algo jamais visto. A admiração dele me comoveu tanto que eu passei outra nota do mesmo valor às mãos da menininha que a segurou, mas como ainda era pequena não ficou tão extasiada quanto o irmão.

Ali eu percebi que o dinheiro era uma coisa rara para aquela família, que o encantamento do garoto poderia ser em função dele saber que, com aquele papel colorido o papai ou a mamãe poderia comprar comida ou um sorvete, sei lá! Não poderia imaginar o filme que passava na cabeça do moleque enquanto se hipnotizava com aquela coisa estranha que poderia comprar o que ele talvez estivesse sonhando há tempo.

Acho que me comovi tanto com a reação do garoto, que nem percebi quando a linda e jovem mamãe colocou a bolsa sobre o banco do carro, só voltando para a realidade quando ela me perguntou se estava boa aquela quantidade. Respondi que sim, mas sem olhar e quando o fiz, quase dei um treco, pois ela havia abarrotado a bolsa, os cajus deliberadamente caíam no assoalho e rolavam para debaixo do banco.

Na mesma hora peguei uma nota R$ 5 Reais e passei às mãos dela, mas ela, honesta que foi, disse que não poderia aceitar, pois eu já havia pago dobrado quando dei o dinheiro nas mãos das crianças. Insisti e disse que havia dado para as crianças e que, pela quantidade de cajus, ela deveria aceitar o que eu queria pagar. E assim foi.

Na hora da partida, pedi licença ao menino pedindo que ele e afastasse e dei uma buzinadinha, um toque apenas, e para a minha surpresa, a menina, no alto do colo da mãe soltou uma gargalhada tão gostosa, que não tive reação para arrancar com o carro, e como foi um modo fácil de ver felicidade no rostinho de uma criancinha, toquei a buzina mais uma vez, e agora mais demorado, a menina não se continha e gargalhava ainda mais... Fiz isso por algumas vezes e em todas elas, a menina repetia seu gesto hiper alegre para quem quisesse saber da sua imensa felicidade com aquele barulho, que em particular, pra mim, é muito irritante.

Mas como eu não tinha muito tempo a perder, não me prendi ali e fui embora, seguindo viagem e saboreando vários cajus. Doces cajus...

A noite, já no hotel, percebi a cagada que eu fiz... Cada gota daquele suco delicioso que caiu em minha roupa, deixou uma mancha que se perpetuou no tecido. Não houve jeito, nenhum truque caseiro resolveu, nem os indicados pela minha mãe, eu manchei a coisa toda, as roupas, a toalha de mãos e o estofado do carro que também é forrado por tecido (esse foi o pior, está lá até hoje pra todos perguntarem: O quê que foi isso? Aff!). Mas não me arrependi porque valeu a pena saborear o que antes estava me dando água na boca, ou melhor: Um lago na boca...

Bem... Essa foi a história que mais me marcou, pois além de ainda me trazer o doce sabor dos cajus na memória (e na boca também), me mostrou duas condições de vida que nós, das cidades grandes, jamais tomamos conhecimento de que acontecem diariamente com pessoas de recursos limitados que vivem de acordo com suas precárias condições, se adaptando nas formas mais simples ou miseráveis da vida e sem lamentarem. Lamentarem como nós que temos tudo ao alcance, muitas facilidades no nosso dia a dia e nada fazemos além de reclamar da vida.

A primeira parte dessa história que contei foi do velho da cestinha, que caminha por mais de doze quilômetros entre ida e volta todos os dias, independente das condições do tempo, só para ajudar a irmã em cuidar bem do filho, que provavelmente é um trabalhador na lavoura. A segunda parte foi a história da mulher com seus dois filhos, que provavelmente fica sozinha naquele fim de mundo enquanto o marido sai pra trabalhar (imagino ser isso).

Ela provavelmente cultiva e colhe os cajus, os coloca na beira da estrada a exposição de algum possível viajante querendo aquela mercadoria, que só deve passar na hora de ir ou vir do trabalho, cruzando uma estrada terciária e com o mínimo de tráfego por ser longa, deserta e perigosa, pois me assustou por algumas vezes quando o carro afundava na areia fofa e parecia querer agarrar. Uma mulher batalhadora e perdida naquele deserto de mato ralo e areia solta que talvez jamais possa dar chances de educação para os filhos ou no mínimo, um convívio social com outras crianças ou pessoas. Elas, as crianças, me mostraram isso quando o menino se encantou com uma nota surrada de 2 Reais e a menina soltou gargalhada diante do estridente e insuportável som da buzina do carro, coisas banais, insignificantes ou irritantes à nós e às nossas crianças.

A partir desse dia, ao me lamentar de qualquer coisa, me lembro das coisas que eles nem tem ao alcance para poder lamentar.

Pense nisso vocês também...